terça-feira, 17 de abril de 2012
Gadú vira a página no palco com show azeitado e roteiro sem concessão
Maria Gadú soube virar a página ao gravar seu segundo álbum de estúdio, Mais Uma
Página (2011). Típico disco de banda, Mais Uma Página se revelou um trabalho de
sonoridade mais encorpada e repertório mais sofisticado (embora nem todas as
músicas reeditem a inspiração melódica das palatáveis canções do seminal CD de
2009 que deu projeção nacional à cantora e compositora paulista). A virada é
complementada no palco com o azeitado show da turnê nacional que chegou ao Rio
de Janeiro (RJ) na noite de ontem, 14 de abril de 2012, em apresentação que
lotou a casa Vivo Rio. Não foi por acaso que, no bis, Laranja (Maria Gadú, 2009)
aparece temperada com solos do quinteto que divide a cena com Gadú. Tal como o
disco homônimo, Mais Uma Página é show em que o entrosamento da cantora com sua
banda parece ter contribuído (bastante) para o excelente resultado final.
Cesinha (bateria), Doga (percussão), Fernando Caneca (guitarra e violão tenor),
Gastão Villeroy (baixo) e Maycon Ananias (teclados) transpõem para o palco, com
mais pressão, a refinada sonoridade do disco - do qual Gadú apresenta 13 das 15
musicas em roteiro sem concessões. A ponto de o maior sucesso radiofônico da
cantora, Shimbalaiê (Maria Gadú, 2009), não figurar no repertório do show -
indício de que a intenção foi mesmo virar a página para explicitar a renovação
da artista e minimizar os efeitos da superexposição de Gadú na cena nacional ao
longo dos últimos três anos. Seja como for, Mais Uma Página é o melhor show de
Maria Gadú, o mais bem-resolvido em termos musicais e cênicos. Fica evidente já
no número de abertura - Alguém Cantando (Caetano Veloso, 1977), numa leitura que
evidencia a percussão de Doga e a segurança vocal da intérprete - o apuro do
espetáculo. Na sequência, Reis (Maria Gadú, Ana Carolina e Chiara Civello)
intensifica o canto da artista, elevando a temperatura do show. Os arranjos
valorizam a atual safra de inéditas de Gadú ao mesmo tempo em que oferecem novas
visões para as velhas canções. Um dos pontos altos do roteiro, Tudo Diferente
(André Carvalho, 2009) soa realmente diferente com o suingue percussivo do atual
arranjo. Maria Solidária (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1977) deita e rola
na cama de vozes em que é embalada. Para quem espera ouvir melodias bonitas,
Extranjero (Maycon Ananias e Cassyano Correr, 2011) e Like a Rose (Maria Gadú e
Jesse Harris, 2011) - cantadas em espanhol e em inglês, respectivamente -
mostram que, sim, há boas músicas em Mais Uma Página à espera de oportunidade
para serem propagadas em rádios e novelas. Na estreia carioca do show, a
participação do cantor português Marco Rodrigues facilitou a exposição da alma
lusitana e do sentimento típico de fado que há n'A Valsa (Maria Gadú, 2011). Da
mesma forma, a entrada de Lenine em cena deu um realce numa das canções mais
fracas do disco Mais Uma Página - a inflamada Quem? (Maria Gadú, 2011) - e
atingiu seu ápice no suingante dueto feito com Gadú no sucesso Jacksoul
Brasileiro (Lenine, 1999). Contudo, o ápice mesmo do show é Axé Acapella (Luisa
Maita e Dani Black, 2011), música que exemplifica a opção atual de Gadú por um
repertório menos singelo e mais contudente. Neste arrepiante número, desce a
tela - recorrente no cenário - para a exibição simultânea de um clipe com
imagens de um Brasil menos tropical, captadas no aterro sanitário de Jardim
Gramacho, lixão situado em Duque de Caxias (Baixada Fluminense, Rio de Janeiro).
Fora da seara autoral, Gadú recorre mais uma vez ao repertório da banda Legião
Urbana - da qual já havia revivido Quase Sem Querer (Dado Villa-Lobos, Renato
Russo, Renato Rocha, 1986) - e escolhe outra música do álbum Dois (1986),
cantando Índios (Renato Russo, 1986) com pressão roqueira similar à posta no
fecho do bis em Podres Poderes (Caetano Veloso, 1984). No fim do show, antes do
bis, a funkeada Linha Tênue (Dani Black, 2011) cumpre seu papel de fechar a
tampa mostrando que a página de Maria Gadú está virada também no palco com
coragem que sedimenta a carreira da artista.
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